• Como fabricar um fascista (em nome de Deus)

    Hoje os evangélicos descobriram que Bolsonaro frequenta lojas/templos da maçonaria. A pergunta que eu me faço é, como não descobriram isso quatro anos atrás, quando ele começou a campanha a presidente, e visitava a maçonaria semana sim, semana também?

    Gen. Mourão, vice de Bolsonaro, é maçom e se elegeu senador pelo RS com voto evangélico. Em, literalmente, todos os jornais do Brasil tem imagens dele com avental de maçom. Carla Zambelli, uma de suas apoiadoras de primeira hora, se casou em um templo maçônico e teve Sérgio Moro, ex-juiz ladrão, ex-ministro de Bolsonaro, como padrinho. Isso não devia espantar ninguém, pelo simples fato que Bolsonaro é um ex-oficial de exército, expulso em desonra, depois de planejar atentatos terroristas. O oficialato do exército brasileiro sempre esteve cheio de maçons. Marechais Deodoro e Floriano, primeiros presidentes do Brasil, eram maçons. “Milico é maçon ao contrário”, digo de vez em quando como brincadeira. Então, quando, literalmente, todos os jornais do Brasil publicaram fotos do Bolsonaro visitando lojas maçônicas, sorridente ao lado de maçons, eu não tive o menor vestígio de surpresa.

    • Zambelli de vestido de noiva e seu esposo de farda branca em primeiro plano. Ao fundo um balcão com 3 homens e atrás dele o triangulo com o olho da maçonaria.
    • Mourão com avental da maçonaria ao lado de outros homens brancos de aventais e colares
    • Bolsonaro ao lado de homens cm avental da maçonaria e uma bandeira da loja Grande Oriente

    Se são tantos os motivos para saber que Bolsonaro está cercado de maçons, provavelmente desde que era um cadete na Agulhas Negras, como uma parcela tão grande de brasileiros descobriu isso hoje, quatro de outubro do ano de nosso senhor Jesus Cristo de 2022? É preciso que essas pessoas sejam mais que desinformadas. Para uma parcela enorme da população ignorar completamente um fato que é público e notório é preciso controlar os meios de comunicação, para impedir que eles noticiem o que é público e notório. É preciso censura. E não faz sentido falar de censura quando, como dito, isso foi publicado em, literalmente, todos os jornais do Brasil. Então, estamos diante de um fenômeno mais interessante. Vamos chamar de “segregação informacional”.

    Igrejas evangélicas costumam ter canais de TV, jornais, e recomendar que seus fiéis acessem informações apenas destas fontes. O objetivo é evitar ser contaminado por um mundo de pecado, evitar a tentação é um passo anterior a pedir para Deus “não nos deixei cair em tentação”. Se essa parcela da população voluntariamente seleciona suas fontes de informação, para fazer ela ignorar algo não é preciso censurar toda a imprensa, apenas essa mídia evangélica. E sim, no momento em que escrevo a página inicial do portal R7, da Igreja Universal não tem nenhuma menção à polêmica do dia, ao contrário da Folha, por exemplo.

    E, pode me chamar de teórico da conspiração, mas isso exige consciência. Quem comanda estes meios de comunicação evangélicos decidiu, conscientemente esconder do público evangélico, informações que desabonem Bolsonaro. Estes meios de comunicação decidiram que não são jornais, mas panfletos políticos defendendo um candidato.

    Para fabricar um fascista que defenda o indefensável é preciso fazer ele acreditar em muitas mentiras. Editar a realidade em que ele vive através de muita propaganda. A atitude evangélica de evitar a imprensa laica os deixou vulneráveis à má fé de seus dirigentes que esconderam deles o que “todos sabem”. Que Bolsonaro é rodeado de maçons, que seu governo foi uma catśtrofe, que ele é o assassino de pelo menos 400.000 pessoas que não precisavam ter morrido na pandemia, que é corrupto até os ossos. Esses sacerdotes que são donos de meios de comunicação incentivam seus fiéis a consumirem apenas estes meios de comunicação e os usam para ganhos financeiros e políticos, espalhando pânico moral e mentindo para seus féis. Essa edição da realidade através da mídia que as igrejas fazem tem feito com que, cada dia mais, seja difícil diferenciar um evangélico de um fascista. E é impossível que isso seja obra do acaso. Estamos diante de um caso de má fé clara.

    Precisamos urgentemente e uma regulação da mídia e, provavelmente, a parte mais importante dessa regulação seja impedir a simbiose entre religião e mídia.

  • A Política Engessada

    A democracia está quebrada, e nem entendemos o problema direito. Isto é um esforço para tentar montar o quebra cabeças. Esta é uma peça.

    O mundo vem se tornando um lugar tristemente sem alternativas. Há um século atrás, havia pelo menos três modelos de sociedade em disputa: socialismo e capitalismo autoritário (fascismo) e democrático. Hoje, o capitalismo democrático é considerado um caminho único, e há um engessamento das estruturas que impede de pensar fora dos estreitos limites do estado liberal burguês. Esse processo de estreitamento dos horizontes tem sido catastrófico para a política, mas não pode ser reduzido a falência dos outros sistemas. É um processo muito mais complexo e multifacetado.

    A democracia presume que o povo tenha poderes, canalizados para governos através de processos eleitorais. A falta de grandes alternativas hoje é um sintoma de um processo de desempoderamento do povo, que passa a ter o poder de decidir os rumos do país apenas dentro dos limites do sistema único. Esse processo ocorre em vários níveis internos dentro dos estados, em que mais e mais poderes são retirados dos setores da administração sujeitos à soberania popular.

    Quando se debate seriamente em campanhas eleitorais medidas como a autonomia do banco central, como ocorre no Brasil, e há uma clara pressão da mídia a favor disto, o que está claro é que a política econômica não deve ser política, mas “técnica”, e portanto não democrática. Uma análise rápida do estado brasileiro mostra claramente a extensão da não-democracia. Agências reguladoras, como Anatel, ANP, Anvisa e outras definem políticas como as condições de oferta de telecomunicações, as regras de produção e distribuição de petróleo e derivados e quais substâncias psicotrópicas podem ser produzidas e comercializadas. E embora estes órgãos definam políticas, estão às margem do processo democrático. Todas as atribuições das agências poderiam ser realizadas pelos ministérios, mas escolhemos terceirizar o estado.

    Essa terceirização cria a aberração de uma democracia onde cada vez mais decisões cruciais não são tomadas pelas pessoas que elegemos. O poder de liberar a maconha não é do presidente ou do congresso, mas da Anvisa, que edita a lista de substâncias proibidas. Gostaria de votar para presidente da Anvisa, mas não é possível. Ao menos, no caso da Anvisa, esse presidente é indicado pelo presidente da república. Agências como a Anatel tem presidentes escolhidos com participação das prórpias empresas de telecomunicaçõs que ela deveria fiscalizar.

    Mas esse artigo não é sobre a Anvisa ou a Anatel. É sobre como “as instituições”, que devem ser preservadas, são a preservação do Estado Burguês e como nossa democracia neoliberal é basicamente uma democracia em que os pontos centrais do sistema não estão abertos à soberania popular.

    Por isso é difícil achar qualquer proposta revolucionária hoje em dia, porque a revolução é a radicalização do poder da política, é a proposta de submeter toda a ordem vigente a uma força política que pretende remodelar a realidade. Na democracia neoliberal, no atual estado burguês, a política está engessada e pode cuidar apenas das questões menores.

    Isso é garantido por limites nacionais e internacionais. As regras da OMC colocam claros limites ao que um país pode fazer. As regras do mercado de capitais internacional também.

    Essa situação nos leva a questionar qual a utilidade da democracia, se a possibilidade de escolha é assim limitada. Temos efetivamente uma ditadura da burguesia, em que podemos escolher apenas entre a política neoliberal 1 e a política neoliberal 2. E, com certeza, o povo percebe isso, e isso está por trás de cada comentário de “político é tudo igual”.

    Se “é tudo igual”, “tanto faz”, e as pessoas não conseguem ver qualquer importância na participação democrática. Esse desengajamento faz a democracia quebrar.

    Consertar a democracia exige que recuperemos o poder da política, a sensação de que as coisas podem realmente mudar através dela. Se a democracia serve apenas para escolher se é uma bota ou um sapato social que pisa no nosso rosto, por que se importar?

    Mas recuperar o poder da política é exatamente negar o culto às “instituições”. É admitir que o estado é, precisa ser flexível, se dobrando às vontades populares e seus eleitos. Considerando que vivemos sob o governo Bolsonaro, com certeza já entendeu qual o risco de um estado flexível, e qual o benefício de instituições que não mudam.

    Mas considerando que Bolsonaro foi eleito exatamente com a promessa de “mudar tudo que tá aí”, também pode entender quanto ressentimento há contra essa falta de poder da política, que limita nossa liberdade de escolher o futuro através do voto.

  • Qual o horizonte do comunismo?

    No mais polêmico lançamento de livro dos últimos anos, Elias Jabbour fez um comentário importante: o horizonte do socialismo hoje em dia é o governo guiado pela razão. Essa discussão de “qual o horizonte do socialismo?”, em qual alvo a gente mira? Essa é uma discussão que fazemos pouco, e sinto que precisávamos fazer mais.

    Afinal, União Soviética caiu, Europa Oriental virou capitalista, os regimes socialistas e Cuba, China, Laos e Vietnã passaram por “reforma e abertura”. A possibilidade de uma revolução violenta é muito remota no Brasil, uma vitória eleitoral acachapante dos comunistas também é uma possibilidade improvável e, pior, parece depender de clareza sobre qual este horizonte. Difícil convencer o eleitorado sem um plano claro de para onde ir. Qual o alvo então? Qual o horizonte onde mirar?

    Mas um governo orientado pela razão parece antes uma utopia weberiana que uma marxista, não? O que ocorreu entre os anos 70 do século XX, em que as revoluções eram possíveis, e aconteceram, e os nossos anos 20 do século XXI, cuja utopia lembra o século XIX?

    Existe uma potência singular por trás do argumento de Elias Jabbour, uma verdade implícita: a razão defende o socialismo, e o sistema neoliberal é irracional.

    É difícil sustentar racionalmente um sistema onde 99% da população possui metade da riqueza. Argumentos neoliberais, como a “economia do gotejamento” são desmentidos pelos fatos. É impossível justificar pela razão a existência de bilionários em países onde pessoas passam fome. E, ainda mais insustentável defender políticas econômicas, que neste contexto, favorecem os bilionários e aprofundam a fome.

    A razão pode descrever estes sistemas, mas nunca defendê-los.

    O capitalismo se sustenta não pela razão, mas pela falta dela. Pelos automatismos que são incutidos nas pessoas pela educação, pela mídia, pela tradição. Pela defesa cega e irracional da “família”, da “meritocracia”. O simples fato de aplicar a razão ao governo, nos leva à conclusão básica da República: administrar o comum para o bem de todos. Um ideal iluminista.

    Citação de Darcy Ribeiro com uma foto dele sorrindo.
"A crise na educação no Brasil não é uma crise; é um projeto."

    A ideologia capitalista bota uma fantasia de racionalidade no capitalismo, porque utiliza a ciência e a técnica para administrar a produção, porque planeja as atividades futuras. Mas essa racionalidade do setor privado do capitalismo não se estende ao governo ou ao Estado, cujas ações se guiam não pela razão da República, mas por defender e perpetuar os privilégios de poucos às custas de muitos. Sob o capitalismo, o Estado é um projeto de exclusão, cuja crueldade precisa ser mascarada para que possa se passar por racional.

    Mas qual razão poderia aumentar a taxa de juros em meio a uma recessão, como nosso Banco Central tem feito? Qual razão poderia criar o Teto de Gastos em um país que precisa desesperadamente de investimento público? Que razão poderia aplicar um três golpes de estado em nossa história? Que razão pode glorificar a tortura?

    Não é a razão não guia os governos no capitalismo, mas os interesses de uma pequena elite em manter funcionando a máquina de fabricar miséria que nosso governo foi projetado para ser. O objetivo que as instituições democráticas dizem que defendem são todos racionais. Os objetivos que o liberalismo diz que defende são todos racionais, e se aproximam de vários objetivos comunistas. Mas o que as instituições realmente fazem é irracional. O que o neoliberalismo defende é indefensável.

    Sobre isso, nosso próximo post vai mergulhar na má-fé institucional.

  • Minha história com a “correlação de forças”

    ou: Da necessidade de uma “engenharia” na política

    Quando comecei a frequentar reuniões partidárias, comecei a ouvir algumas expressões, como “análise de conjuntura”, “correlação de forças” e, claro, ficava com vergonha de perguntar “O que é isso?”. Tenho a impressão que o círculo de “cracudos da política” tem um léxico próprio e assume que todo mundo que entra nesse círculo tem obrigação de saber o que os termos significam.

    Lembro de, com algo como 16 anos, ficar me perguntando, lá pela quarta, quinta reunião o que significava “análise de conjuntura” e do momento de compreensão súbita de que “correlação de forças” não era apenas comparação de potencial eleitoral, mas algo mais amplo, incluindo a capacidade de mobilizar recursos para suas ações, e etc.

    Todos os espaços políticos que participei valorizavam muito a leitura e o estudo: entender “teoria”. Citar os pensadores, fazer “análises de conjuntura” profundas, te garante bastante status nesses espaços (e no Twitter). Mas (e olhe a cartada de autoridade) parafraseando Marx, não é mais tempo de analisar a correlação de forças, mas de transformá-la.

    Nossa “teoria” política se aproxima muito da física teórica. Concebe conceitos e enquadra a realidade neles. Um esforço analítico imenso. Mas na hora de fornecer ferramentas teóricas para transformar essa realidade, sinto que não conseguimos ajudar muito o garoto de 16 anos que não sabia muito bem o que era aquilo tudo que estavam falando. Sinto falta de uma engenharia, que ofereça algumas respostas práticas.

    Por isso, o incentivo a estudar que recebi, que me fez ler Lênin e Gramsci mais tarde, não me ajudou muito a entender como poderíamos mudar nossa correlação de forças. Temos ótimos textos sobre as condições políticas russas antes e após a revolução, mas muito pouca coisa sobre o Brasil do século XXI. Por mais que admire Lênin não posso acreditar que seja possível transpor facilmente qualquer uma de suas soluções, seja “paz, pão e terra”, seja “todo poder aos sovietes” aos nossos problemas.

    Estudamos muito a correlação de forças, mas pouco quais seriam estratégias viáveis de acumulação de forças. Quando debatemos, aparecem propostas genéricas como “voltar às bases”, que por mais que estejam certas, são abstratas demais para terem a utilidade necessária.

    Existem regularidades. Existem situações similares. Precisamos de alguma compilação de conhecimentos sobre como atuar politicamente em espaços similares: escolas, periferias, unidades de saúde, sindicatos… Respeitar as singularidades de cada condição concreta não significa não oferecer um método. Paulo Freire, mestre em respeitar as realidades locais, ofereceu um método.

    Voltando à correlação de forças, com o tempo descobri que existem caminhos para que acumular estas tais forças em correlação. Entidades precisam comprar aos poucos ferramentas que possam ser usadas para várias atividades, aumentando sua capacidade de mobilização; precisamos registrar os contatos do máximo de pessoas que participam de atividades, e, principalmente, mobilizar estes contatos; construir projeção midiática de potenciais candidatos; e mais uma série de estratégias práticas.

    Nesse mesmo tempo de descobertas, percebi que no dia a dia de mobilizações, atos de rua, congressos e eleições de entidades, raramente temos este tipo de cuidado, por falta de tempo e orientação, excesso de urgência e imediatismo.

    Meu palpite é que grande parte dessa carência é falta de “pegarmos na mão” e ensinarmos as cosias aos jovens de 16 anos. O excesso de ego e a supervalorização da teoria sem práxis, e práxis é organização.

    Fiquem com Malcon X.

    Foto de Malcon X com a mão no rosto e olhar pensativo com a legenda "We are not outnumbered. We're out organized."
    Nós não somos minoria. Nó somos desorganizados. (um trocadilho no original)
  • A conspiração do silêncio

    No debate eleitoral da Band houve um pico de pesquisa por Guilherme Boulos, e a interpretação mais óbvia é que isso ocorreu porque grande parte do Brasil não o conhecia, e foi conferir quem ele é. Apesar de sua candidatura estar na rua há meses, de ter dado entrevistas como a do Roda Viva, de ter sido colunista por mais de dois anos na Folha de São Paulo, ele continuava um grande desconhecido. O movimento que ele dirige, o MTST é infinitamente mais desconhecido e incompreendido que o MBL, apesar do MTST ser o maior movimento social urbano do país.

    gráfico do interesse por Guilherme Boulos no Google Trands, de 1º de Março a 10 de agosto, mostrando um aumento abrupto de pelo menos 10x na data do debate.
    Gráfico do Google Trands para Guilherme Boulos.
    Gráfico do Google Trends comparando interesse entre MBL e MTST de agosto de 2017 a agosto de 2018. O MBL tem, consistentemente pelo menos cinco vezes mais buscas, com vários picos em que atinge pelo menos 15 vezes.
    Gráfico do Google trends para MBL e MTST.

    Marielle Franco era uma ilustre desconhecida até seu brutal assassinato, conquistas como o aumento do IDEB no Ceará, o programa Escola Digna no Maranhão são desconhecidas da maioria das pessoas. Em um trecho do Anticast, Lula conta que enquanto era antipolítica, era uma figura que aparecia nos jornais sempre, mas quando entendeu a importância da política e começou essa militância começou a ser boicotado. Podemos fazer uma longa lista de casos, que vão todos nos indicar uma dificuldade muito grande de pessoas, movimentos e conquistas de esquerda de se tornarem conhecidas.

    Debatemos a cada eleição a escassez de lideranças no campo de esquerda que sejam eleitoralmente viáveis, mas não debatemos o pacto de silêncio que existe na imprensa para esconder as lideranças que existem.

    A imprensa, sempre que possível, silencia, apaga, ignora as lideranças que podem ameaçar o sistema, e por isso precisamos fazer o movimento contrário: divulgar essas pessoas. A imprensa alternativa tem falhado em gerar visibilidade para lideranças de esquerda porque se concentra em comentar o que a grande mídia diz, mas sem levantar novas pautas. Mas o problema não é só o viés, mas a escolha do conteúdo.

    Essa escolha faz com que a cada eleição a gente já comece em desvantagem, porque nossos candidatos são os desconhecidos, os que não aparecem nos jornais, os que temos que explicar quem são. Enquanto os outros, com acesso às manchetes, já fazem parte do imaginário popular.

    Enquanto não começarmos a divulgar nossas lideranças no dia a dia, na imprensa alternativa, nas redes sociais, não vamos conseguir romper esse pacto de silêncio da imprensa corporativa.

  • O Antipetismo ou Da Banalidade do Mal

    Entender o mal é complicado, porque nós sabemos que as pessoas, em sua maioria são boas. Momentos como hoje, em que muitas pessoas consideram seriamente votar em um candidato que defende o preconceito e a violência nos incomodam, porque abalam nossa fé no ser humano. É sobre essa fé que vamos falar.

    Para descrever o nazismo Annah Arendt usou o termo “banalidade do mal”. Para ela, surgiu um sistema em que as pessoas deixaram de pensar e começaram a seguir o fluxo. Um fluxo que levou ao assassinato em massa, em escala industrial. E quando as pessoas tiveram que refletir sobre suas ações não conseguiam entender como tinham cometido essas aberrações.

    Deixar de pensar é o ponto chave aqui. Todos nós somos responsáveis pelo que fazemos, mas só quando a gente para e pensa a gente toma consciência do que estamos fazendo. É difícil pensar e fazer ao mesmo tempo. E, se a maior parte das pessoas é boa, se elas pararem para pensar, provavelmente mudam suas ações.

    E precisamos convidar as pessoas a pensar sobre o antipetismo.

    Desde que Lula começou a governar a imprensa começou um bombardeio sem trégua, distorcendo, exagerado e até mentindo para criar uma narrativa que o PT não é um partido, mas uma “organização criminosa”. Têm dado palanque a todo fundamentalista para dizer que o PT quer perseguir cristãos e “acabar com a família”. Têm repetido e repetido que o PT levaria o país a uma crise econômica sem precedentes.

    Esse discurso virou senso comum, é o fluxo em que as pessoas seguem, e onde elas não precisam pensar para agir. O caminho ditado pelo piloto automático. Esse piloto automático diz que o PT é a pior coisa e que qualquer alternativa é melhor.

    Será mesmo?

    Como acreditar que o partido que sofreu um impeachment e teve sua maior liderança presa sem apelar para o autoritarismo é um partido autoritário? que quer implantar uma ditadura? Que um partido que implantou tantas políticas de assistência social, de proteção às famílias mais pobres, está trabalhando para destruir a família? Que o partido que armou a Lava Jato de poderes e deixou que ela funcionasse é uma organização criminosa?

    Precisamos convidar as pessoas a pensar nisso, porque só quando questionamos o senso comum conseguimos realmente avaliar a alternativa. O discurso do antipetismo que não há nada pior que o PT, e não adianta tentar mostrar os defeitos de Bolsonaro sem questionar esse ponto de partida.

    O antipetismo é nosso veneno atual, que turva o julgamento e nos impele para abandonar valores básicos como a democracia, os direitos humanos, o respeito ao próximo, e o antídoto para este veneno é o pensamento. É o pensamento que chama as pessoas de volta à responsabilidade pelas suas ações.

    Pense. Convide a pensar.

  • Por que querem nos isolar?

    Nunca fomos tão solitários, dizem vários estudos. Alguns apontam as redes sociais, outros a pós modernidade, alguns o capitalismo selvagem em que vivemos. Mas nessa reta final das eleições, estamos sentindo uma solidão muito mais grave.

    Nas igrejas, escolas, universidades, redes sociais, vemos os fascistas botarem em prática uma estratégia de fazer barulho, intimidar, fazer parecer que são maioria, para nos inibir. Fazer com que pensemos que somos poucos, que nossa situação é frágil, e por isso fiquemos calados, em silêncio, sozinhos e com medo.

    Por isso o ataque incessante de bots/trolls. Tentam intimidar como uma onda, uma manada. Por isso as constantes ameaças de violência física. Tentam intimidar do modo mais baixo. Mas por que querem nos isolar?

    Uma das necessidades do fascismo é que as pessoas sejam fracas para que o estado seja forte. Isolar as pessoas é um modo de as enfraquecer.

    Nós somos pessoas, indivíduos, únicos e, entre nós, há um espaço. Neste espaço-entre, surgem as nossas relações. Nesse espaço nos expressamos, agimos, conhecemos o outro e o outro nos conhece. Neste espaço nos tornamos realmente humanos a partir de relações significativas. 

    Quando não podemos nos expressar neste espaço-entre, por conta do medo, ficamos cada vez mais isolados e frágeis, porque precisamos de apoio dos nossos para sustentar nossas opiniões contra uma multidão violenta, mas mais que isso. Quando nos roubam este espaço-entre, nos roubam uma parte da humanidade.

    O fascismo usa o medo sobre todos. Persegue todos que discordam para insuflar o medo com que preenche o espaço-entre, acabando com a liberdade. Mesmo os que perseguem são vítimas. Dentro dos grupos fascistas a vigilância contra traidores e constante e a discordância é sinônimo de traição, e punida.

    Assim que as vozes se calam, assim que os fascistas conseguem tornar o espaço-entre tão hostil que ninguém mais fala, quem está no topo da hierarquia tem o poder completo, porque não é possível uma resposta coletiva contra seu arbítrio. Quando o espaço-entre não comporta mais a vida, não vivemos. Quando não há espaço-entre, perdemos um pouco da nossa humanidade e nos tornamos animais assustados a mercê de um ditador.

    E é por isto que querem nos isolar.

    Como eles são violentos, intimidadores, usam as estratégias do medo, grande parte das pessoas menos politizadas já se calaram, alimentando a ilusão que eles são mais fortes do que são, nos despertando solidão e angústia nesses últimos dias. Mas no momento em que nos calarmos, no momento em que nos submetermos a estes sentimentos, eles vencem.

    E é por isso que não podemos nos isolar.

  • Política vs. Informação&Entretenimento

    Em 2003 Humberto Guessinger e Paulinho Galvão escreveram “Fusão a frio”, avisando sobre as incertezas desse encontro entre informação e entretenimento.

    “Ninguém sabe como serão os filhos deste casamento
    indústria da informação,indústria do entretenimento
    promessas de fusão à frio, desvio de comportamento”

    Fusão a Frio, Humberto Guessinger e Paulinho Galvão em Dançando no Campo Minado, 2003.

    Talvez veja nessa fusão antes de mais nada na mudança dos documentários, que passaram de programas informativos para essa tentativa canhestra de adicionar ação e drama, mas podemos ver também nos telejornais1, programas de auditório, revistas semanais e, claro, canais do YouTube.

    O ideal da república esclarecida parte do pressuposto que cidadãs e cidadãos participem de forma qualificada, esclarecida e engajada. Mas este casamento de informação e entretenimento não contribui nem para o engajamento nem para o esclarecimento. Processar informação é esforço, trabalhoso, e o entretenimento precisa de gratificação imediata. Por isso a política é transformada em uma espécie de esporte. Porque a vitória do seu time oferece gratificação.

    O grande problema do esporte é que ele é que seu resultado é definido pelo seleto grupo de jogadores, técnicos, administradores, médicos, etc. A nós, espectadores e torcedores, resta observar e torcer. O problema central desta abordagem não é que ela reduza o engajamento, que é fundamental para a república (e reduz), mas que ela leva a uma degeneração da política.

    A política deixa de ser algo que nos diz respeito, que afeta nossa vida, e da qual podemos participar de modo ativo, para ser algo que observamos relativamente passivos, com ganas de vencer o adversário. Um jogo entre alguns atores privilegiados, que nos diz respeito apenas enquanto apoiadores de um dos lados.

    A antipolítica se alimenta dessa visão, que a política diz respeito apenas a estes jogadores e seus torcedores, em vez de se tratar do nosso destino compartilhado, de nossa vida coletiva.

    O radicalismo crescente, a impossibilidade de construir acordos e conciliações tem se beneficia com esse desvirtuamento. Quando você retira da política seu cerne, seu significado, que é ser um mecanismo de decidir nosso destino compartilhado, e a reduz apenas à sua aparência de conflito, você retira o significado deste conflito, que está nas diferente estratégias para melhorar essa vida compartilhada. Sobra um conflito pelo conflito, como os dos torneios esportivos.

    O mais assustador nos últimos anos foi a normalização do preconceito, da discriminação e da incitação à violência como se fossem posições políticas aceitáveis. Uma explicação possível é exatamente este esvaziamento do significado da política.

    Outra é que a divulgação dessas posições quebra a espiral do silêncio em torno delas, cativando um grupo de espectadores que discorda dos valores mais básicos do Ocidente. Oferecer gratificação para estes espectadores não poderia ser uma função da informação, mas bem pode ser uma do entretenimento.

    Precisamos resgatar o sentido da política, e isto inclui negar o modo como o noticiário político se organiza. Apontar as consequências das escolhas políticas, consequências bem reais, vida e morte de pessoas. Resgatar a percepção que a política é feita em conjunto por todos nós, e não por um pequeno grupo de privilegiados.

    Infelizmente, isto significa também pensar novas formas de comunicação, que possam incentivar a responsabilidade em vez do conflito vazio e a participação em vez da torcida.

  • Aluga-se uma cidade

    Impossível andar pelo centro expandido de Divinópolis e não ser bombardeado pelos chamativos cartazes de “aluga-se”. Muitos, vários. A cidade inteira disponível para locação. O que está acontecendo? A gente se pergunta, porque é preciso se perguntar, é preciso viver a dúvida e tentar desesperadamente entender o mundo em que vivemos, ou estamos condenados a sermos passageiros do primeiro ônibus que aparece, a não saber o itinerário ou ter controle sobre o destino. Viver, de verdade, exige o constante esforço de entender.

    Pessoas não desaparecem, não sem que haja sinais mais evidentes que placas de “aluga-se”. Se não desaparecem, estão apenas mudando de lugar. As várias casas nas regiões mais centrais da cidade, agora vagas, estavam ocupadas, e se seus ocupantes não evaporaram, o que está acontecendo é um dos processos mais antigos da urbanização, a migração das massas pobres para as periferias. Olhe de novo esses cartazes e pense que em cada casa, hoje para alugar, morava uma família que teve que se mudar para um aluguel mais barato, na periferia.

    Não a cidade que você sonhou, certo? Mas claro, fica pior.

    Os aluguéis no centro expandido é tão caro, porque nossa cidade é cheia de vazios, cheia de lotes vagos. E a cada ano aprovam mais condomínios, garantindo que em vez de preencher os vazios históricos da cidade, tenhamos mais e mais bairros distantes. Uma cidade assim espalhada, cheia de lotes vagos, faz com que os serviços públicos sejam ainda mais frágeis do que o normal nas periferias do Brasil. É impossível que um prefeito, seja quem for, seja que partido for, consiga colocar serviços públicos perto da população da periferia, porque essa população está espalhada em bairros que são mais mato que casa. Então essa população expulsa do centro pela especulação imobiliária, está sendo afastada de serviços públicos. É a população mais carente, que mais precisa desses serviços, mas é exatamente a que menos os tem.

    Com certeza não é a cidade que você sonhou. Há alguns anos o país ia bem, havia emprego para todos, os salários subiram, as pessoas saíram da periferia e ocuparam esses imóveis agora vagos no centro da cidade. Veio uma crise econômica, os salários estagnaram, o desemprego aumentou, e elas são expulsas para a periferia. Não é culpa delas, mas são elas que são prejudicadas. Isso com certeza não é um sistema justo. Um sistema justo minimiza e mitiga esses fenômenos. Um sistema justo controla a especulação imobiliária, para que o estoque de terra sem uso não prejudique a população a cada crise econômica, para que os bairros não passem décadas sem infra estrutura mínima e não tenhamos uma indústria do calçamento pior que a indústria da seca operando desde sempre na cidade.

    Um sistema justo congela a abertura de bairros e a criação de condomínios, para que a cidade cresça preenchendo seus vazios, em vez de adicionando novos bairros, que vão ter os imóveis comprados por uns poucos especuladores “esperando valorizar”. Um sistema justo obriga os donos de terra devoluta a construírem, alugarem, venderem, a dar um valor social em vez de manter um número imenso de imóveis vagos, com preços altíssimos, para garantir uma escassez artificial de terra.

    Cada vez que uma família se move para a periferia cria um ônus para a cidade toda, porque a prefeitura é obrigada a garantir transporte escolar, porque o programa saúde da família, CRAS, escolas, creches não podes ser implantados em um bairros com área imensa e população espalhada, porque o transporte coletivo tem que computar distâncias maiores para comunicar as partes da cidade. E a cidade paga para que alguns poucos especuladores garantam os preços sempre mais altos da terra no centro, onde um lote pode custar mais de um milhão.

    Uma cidade bem pouco divina essa, em que o povo paga para o benefício de uns poucos magnatas. Mas como resolver esse problema?

    Não é tão difícil quanto parece. Mas não vai acontecer, porque governo atrás de governo na cidade, o que tivemos foi um pensamento capitalista, que acha normal esse estado de exceção. Que acha normal privatizar os lucros da terra parada em alguns especuladores que possuem mais de mil lotes na cidade e socializar o prejuízo para toda a população.

    A primeira medida é proibir a construção de prédios altos na cidade. Um terreno vale mais de um milhão, porque um investidor compra três, quatro, faz um prédio de trinta andares com apartamentos de luxo e vende a dois milhões cada. Mas essa conta não fecha se em vez de trinta o máximo que se possa construir forem quatro andares. Proibir prédios iria reduzir o preço dos terrenos ainda vagos no centro imediatamente.

    A segunda é não aprovar novos loteamentos até que o volume de terra desocupada da cidade caia a níveis aceitáveis. Isso faria a cidade crescer para dentro, ocupando os imensos vazios em vez de para fora, pressionando as áreas verdes, nascentes, encarecendo o transporte coletivo, adicionando novas ruas para o poder público fazer manutenção, iluminação, abastecimento de água, coleta de esgoto, limpeza e policiamento. Abrir um novo bairro é dispersar ainda mais os poucos recursos do poder público, fazendo com que tenhamos um atendimento ainda mais precários à população. Um verdadeiro crime na situação atual de Divinópolis.

    A terceira é implementar um IPTU progressivo que efetivamente pressione a ocupação dos terrenos devolutos, fazendo com que seja mais caro manter o terreno vazio do que construir ou vender. Para isso é preciso atualizar a planta de valores, fazendo com que o valor dos lotes vagos deixe de ser a ninharia irreal que consta hoje na base de cálculo e se aproxime de seu valor real, e se implemente o aumento progressivo do IPTU a cada ano que o imóvel fique desocupado.

    Divinópolis é uma cidade que ainda cresce aceleradamente, que atrai imigrantes em busca de um lugar para construir suas vidas. Com essas três medidas seria possível garantir que que essa população que cresce a cada dia conseguisse encontrar moradia dentro da cidade, e cada vez mais em regiões povoadas o bastante para terem serviços públicos de qualidade.

    Esse é o tipo de debate que deveria ser feito nas eleições, feito com toda a população, porque se há os grandes especuladores de terra, há também a classe média com um ou dois terrenos que seria afetada. Mas ele não é feito, porque Divinópolis se acostumou a fugir da dúvida e abraçar a certeza. Deixou de questionar como as coisas são, por que elas são e como podem ser mudadas, para procurar o melhor administrador do status quo.

    O status quo é uma cidade disponível para locação, que nunca será do povo, que que nela mora, mas paga aluguel para seus senhorios. Uma cidade que tem dono, e não somos nós.


    Artigo um, de uma série de quinze artigos chamada Divinópolis à Esquerda, que propõe uma reflexão sobre a cidade com o olhar firmemente plantado na esquerda política

  • Pílula Vermelha 5 – Quem é o judiciário?

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    O judiciário, antes de mais nada, é esse povo que recebe acima do teto de trinta mil reais e fez greve, para preservar um “auxílio moradia” imoral, em vez de mostrar dignidade humana e se juntar aos protestos contra a execução de Marielle Franco.

    juizes que recebem acima do teto
    Fonte: Nexo Jornal

    Esse povo que sabe que a prisão em segunda instância não vai passar, se for votado o caso geral, mas julga o caso de Lula antes, para poder o condenar.

    Esse povo.

    Você fala como se todo rico fosse uma pessoa horrível…

    Quase isso, rs. Não é que eles sejam horríveis, mas que a riqueza, em um ambiente de segregação como o Brasil, onde as pessoas vivem em partes diferentes da cidade, em cidades diferentes, estudam em escolas diferentes, não vêm o povo nunca na vida… Essa distância alimenta uma falta de empatia monstruosa. Não que eles sejam horríveis, mas são ricos há tantas gerações que estão acostumados a serem servidos, a serem mais importantes sem ter feito nada para isso, desde a época em que escravizavam pessoas.

    Pelo menos o judiciário é mais honesto que os políticos

    Quanta inocência… Vários membros do judiciário foram pegos com a boca na botija, de Demóstenes Torres, que mesmo condenado, vai poder concorrer, porque a Ficha Limpa não vale para procurador, ao primo de Aécio, que vendia habeas corpus para traficantes de drogas. Achar que existe uma separação clara entre juízes e políticos é tão ingênuo quanto pensar que existe uma separação entre políticos e empresários.

    O judiciário está só consertando o país.

    Existe uma coisa, tem só mais de dois séculos chamada divisão dos poderes. Um poder não pode passar por cima do outro, porque vai fazer merda. ‘preciso que os vários órgãos de governo estejam o tempo todo vigiados pelos outros órgãos, para andarem na linha. Nem os militares, nem os juízes, nem os políticos vão se comportar sem cobrança. Mas quem vigia os vigilantes? quem investiga e julga o judiciário? Criar um sistema em que o judiciário vigia todo mundo e ninguém vigia o judiciário não é consertar o país, é alimentar o atraso.

    Corrupção é corrupção. Tem que ser punida onde estiver.

    Não podemos concordar mais. Mas então, por que os juízes são tão brandos com pessoas como Alckmin, envolvido no Cartel do Metrô, Azeredo e Aécio, na Lista de Furnas, Temer, emaranhado a corrupção do Porto de Santos… A lista é longa. justiça seletiva não é justiça. Estamos assistindo há alguns anos operações judiciais que não buscam justiça, mas enfraquecer e fortalece partidos. E o que é pior, passando por cima da lei.

    Por cima da lei?

    A Lava Jato tem usado delações premiadas para condenar pessoas, mas a lei exige que o delator apresente provas das suas delações, o que muitas vezes não acontece. Tem abusado de prisão provisória, prendendo pessoas por meses, sem acusação, para só então as ouvir. Tem exigido prova de inocência dos réus, em vez de provar a culpa, através do uso do domínio do fato. No caso de Lula a situação chegou ao absurdo de ele ser acusado de crimes diferentes em cada momento do processo: foi acusado de receber vantagem da OAS por três contratos com a Petrobrás, mas condenado em primeira instância por solicitar vantagem por contratos genéricos e em segunda instância por comandar um “caixa geral” de propinas.

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