Categoria: Destaques

  • Como o neoliberalismo matou a democracia

    É lugar comum se debruçar sobre os motivos que levaram a democracia burguesa ao impasse em que se encontra hoje e as possíveis explicações elencadas são as mais diversas. Como o fenômeno complexo que é, que se manifesta em cada país de modo ligeiramente diferente, é difícil sustentar um motivo central, como o título deste ensaio sugere, mas este é o desafio que buscamos confrontar, defendendo a centralidade do neoliberalismo, este conjunto complexo de política, economia e ideologia, nesta transformação. Além da centralidade, disputamos o marco temporal. A democracia não “está ameaçada”, ela já morreu, afinal:

    Em última instância, democracia é ter um estado que atenda os interesses do povo

    Os comentaristas políticos já usaram a expressão “crise de representatividade” à exaustão, mas são incapazes de explicar o que ela é e qual sua origem, porque isto deixaria o rei nu. As instituições de poder da democracia tem tido seu poder reduzido nas últimas década para garantir um objetivo central: a supremacia do capital financeiro, ou do “mercado”, como a mídia chama. Para garantir que os interesses dos capitalistas financeiros, que operam nas bolsas e ganham, dinheiro com o rentismo não sejam confrontados o neoliberalismo é, politicamente, um sistema que coloca para fora do debate democrático a discussão sobre o sistema econômico. Há vários exemplos na história recente do Brasil do mercado chantagear o governo para garantir seus interesses, mas focando no mais emblemático, a independência do Banco Central é uma mensagem que diz claramente “a macroeconomia não é matéria de discussão democrática”.

    Atender os interesses dessa pequena elite de super-ricos do mercado financeiro faz com que sejam eles que controlem elementos chave da economia brasileira: qual a taxa de juros, qual a estrutura tributária, quanto dinheiro o governo tem para implementar políticas públicas e fazer investimentos. Apenas esses super-ricos vivem em uma democracia, em que eles tem status de povo e o direito de ter seus interesses atendidos pelo governo. O resto, a quase totalidade do mundo, vive em uma cidadania de segunda classe, numa semi-democracia.

    “TINA” reduz o limite do possível

    A pedra fulcral do neoliberalismo enquanto agenda política se apresenta no slogan de Margareth Tatcher: “TINA, There is no alternative”, ou “não há alternativa”, porém essa também é a pedra tumular da política, porque se não há alternativa, a política se resume a pequenos ajustes em um destino que não está mais aberto à discussão.

    A operação discursiva desse slogan é apresentar uma afirmação ideológica, de que a economia liberal controlada pelos mercados financeiros é o a única alternativa para a sociedade, como uma verdade científica indiscutível e auto evidente. Ao mascarar uma opção política como verdade científica, a partir do discurso de economistas, o neoliberalismo justifica sua exclusão da política, uma vez que as verdades científicas, como a lei da gravidade ou a teoria da evolução não estão, ou não deveriam estar, abertas a discordâncias políticas.

    A consequência deste slogan ter sido aceito como verdade no neoliberalismo é a redução dos limites do que é percebido como possível. Mesmo diante de exemplos que provam a falsidade do slogan, como a elevação do padrão de vida na China, os ideólogos continuam afirmando que é impossível qualquer coisa além de pequenas melhorias incrementais da situação atual, porque senão os chantagistas do mercado, que são eles mesmos, vão implodir o país. Uma ferramenta argumentativa usada à exaustão é afirmar que o sucesso econômico da China se deve ao autoritarismo, e não a não seguir as políticas neoliberais.

    A despersonalização do mercado recria a aristocracia

    Então chegamos ao último elemento da operação ideológica: como esses chantagistas são convertidos em forças impessoais da economia, e não em pessoas com nome, endereço e interesses, eles nunca são responsabilizados, moral ou politicamente, por suas ações. A opção de condenar milhões à miséria para ganhar mais milhões que não precisa nunca é individualizada e condenada, mas sempre um movimento de forças impessoais.

    Existir uma categoria de pessoas acima da responsabilidade política é uma das características do antigo regime, da monarquia. Algo incompatível com a democracia. Mas o que podemos ver no jornalismo econômico, ou nas pesquisas de opinião apenas entre os operadores do mercado é exatamente a despersonalização, a aceitação automática de tudo que estes atores fazem como correto e válido.

    O “mercado” é uma elite que paira acima da democracia, que não precisa se preocupar com as consequências das suas ações e posições. Eles controlam o estado, que existe para servi-los, e não para o bem geral. Em resumo, uma aristocracia.

    Em resumo

    A “crise de representatividade” da democracia é uma consequência direta da política neoliberal que, por um lado retira enormes parcelas do poder das instâncias democráticas, e entrega para uma casta de parasitas e, por outro, naturaliza esta condição, defendendo que é impossível ter um sistema democrático que não seja essa farsa semifeudal. A democracia está em crise, porque é impossível sustentar a importância de instituições que são, em grande medida, decorativas.

    Para que a democracia tenha valor, ela precisa ter o poder de atender as demandas do povo, mas isso é o exato oposto do que as instituições neoliberais propõe.

    P.S.:

    Entender que a democracia já morreu no neoliberalismo é entender também que o papel da esquerda não pode ser defender a democracia, mas construí-la. E sua construção só é possível enfrentando o mercado.

  • O Capitalismo é Mau

    Frederich Engels criou o termo “assassinato social” para descrever as mortes causadas por condições econômicas e sociais que poderiam ser facilmente evitadas, mas não são. Gosto mais da expressão do que de “necropolítica”, porque deixa claro que há um ator, um responsável. Assassinatos possuem culpados. E, com certeza, esse post existe por causa do assassinato do CEO de plano de saúde nos EUA.

    “Quando um indivíduo ocasiona danos físicos a outro, resultando em morte, chamamos o ato de homicídio culposo; quando o agressor sabe de antemão que o ferimento será fatal, chamamos de assassinato. Mas quando a sociedade coloca centenas de proletários em tal posição de modo que eles inevitavelmente se deparem com uma morte muito precoce e não natural, uma morte que é tão violenta quanto aquela ocasionada por uma espada ou bala; quando priva milhares do essencial para a vida, coloca-os em condições em que não podem viver — obriga-os, através do forte poder da lei, a permanecer em tais condições até que a morte vença, feito consequência inevitável — ou seja, quando ela sabe que esses milhares de vítimas vão perecer e, ainda assim, permite que permaneçam nessas condições, então sua intenção é a de assassinar, assim como quando um indivíduo sozinho comete assassinato; mas torna-se um homicídio disfarçado, malicioso, um homicídio contra o qual ninguém se pode defender, que não parece o que é, porque ninguém vê o assassino, porque a morte da vítima parece natural, pois o crime é mais por omissão do que por cometimento. Mas não deixa de ser assassinato”. — Friedrich Engels, “A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra”

    Uma das críticas mais comuns às revoluções socialistas é o moralismo pacifista. “Como os bolcheviques puderam assassinar a família dos Czares. Mulheres e crianças!”. Esse tipo de crítica comove apenas pela distância, como podemos ver pela falta de empatia pelo CEO. Assim como o plano de saúde é responsável por inúmeras mortes ao negar tratamentos, a família do Czar era responsável por inúmeras mortes em uma guerra que nem fazia sentido para o povo russo. Mas esse moralismo não sobrevive a dois minutos de observação da realidade do assassinato social que ocorre todos os dias.

    Porém, se o povo consegue identificar claramente que essas pessoas são assassinas, como elas mesmas conseguem continuar executando suas tarefas em uma máquina assassina de condenar pessoas à morte? Como é possível que uma série de executivos, analistas e consultores continuem executando tarefas cuja consequência é a morte?

    Esse problema chocou o mundo quando os campos de extermínio foram descobertos na Segunda Guerra. Algumas das melhores explicações são as de Adorno, que falam sobre a existência de uma “razão instrumental” que é capaz de elaborar complexos mecanismos de terror, mas incapaz de refletir sobre as consequências éticas das suas ações, e Arendt, que falam sobre um mal banal, que é executado por pessoas que não pensam sobre o que fazem.

    O choque europeu com o nazismo espantou muito Aimé Césaire. Nascido em uma colônia europeia, foi cirúrgico ao falar que a única novidade do nazismo foi aplicar na metrópole, o que as metrópoles praticavam nas colônias. A indignação ocidental com a violência contra os seus tem ares de hipocrisia, porque das cruzadas ao genocídio palestino em curso, o que os seus fazem é potencializar o mal com toda a razão instrumental disponível e o aplicar do modo mais banal possível.

    O que espanta no texto de Engels, muito anterior a toda essa discussão, é como ele é capaz de perceber que o capitalismo não usa sua razão apenas para matar por ação, mas também pela omissão. Que o capitalismo usa de sua razão instrumental para criar, com a maior banalidade, condições que resultam na miséria e morte. Reformas trabalhistas, corte de aposentadorias, falta de manutenção em barragens de mineração, privatização da saúde, grilagem de terras, especulação imobiliária, evasão fiscal, desemprego… São todas condições que fabricam a morte dos trabalhadores, mas de um modo mais indireto que os policiais atirando em crianças de quatro anos da periferia ou atirando pessoas de pontes. A lógica capitalista, de aumentar os lucros e reduzir os custos, é a própria razão instrumental, que vai ceifando vidas em nome de pagar cada vez menos e cobrar cada vez mais, aplicada sem a menor reflexão ética sobre as suas consequências.

    A falta de consciência, a banalidade do mal, não é desculpa. Como diz Samir Machado de Machado, o único bom nazista é o nazista morto. Mas seguir essa lógica cristalina nos obriga a defender que o único CEO bom é o CEO morto. O único colonizador bom é o colonizador morto. O único grileiro bom é o grileiro morto. É essa lógica cristalina que explica o assassinato do Czar e de todos que poderiam herdar o título. Essa é a lógica dos comunistas que escandaliza quem fecha os olhos ao assassinato social de milhões de pessoas para se indignar com a revolta dos oprimidos.

  • A diversidade é um imperativo estratégico

    Este artigo é o primeiro de uma série que lança reflexões importantes para os debates em torno das eleições municipais de 2024.

    As discussões sobre o espaço que pessoas de minorias sociais, como mulheres, negros, deficientes, pessoas LGBTQIA+ ocupam nos órgãos políticos de esquerda reacendem regularmente, e costumam girar em torno de argumentos éticos e políticos, que são bons, muito bons, mas estamos deixando de lado argumentos estratégicos que deveriam circular mais. Deveriam circular, porque há muita gente que faz questão de não entender que a classe trabalhadora é formada pelas minorias, que não é possível desenvolver o Brasil sem superar as várias formas de discriminação, que as estruturas políticas naturalmente tendem a reproduzir a estrutura social de reservar as posições de poder para uma elite que espelha a elite social.

    Esses argumentos precisam circular principalmente agora, que os partidos se debruçam sobre sua seleção de candidatos para as eleições de 2024, porque as candidaturas, principalmente as majoritárias, são espaços poder e projeção de lideranças.

    Representatividade não é tudo e, por isso mesmo, é fundamental

    O argumento de que a representatividade não é o bastante costuma ser mobilizado pelos seus adversários, mas é exatamente porque a direita é capaz de mobilizar lideranças pertencentes a minorias que a esquerda precisa ser o mais representativa possível. A existência de uma Joice Hasselman ou um Fernando Holiday nos prova que, sim, representatividade não é tudo e o pertencimento a uma minoria não quer dizer a defesa dessa minoria. Mas também nos mostra que a direita disputa as minorias sociais a partir de dentro destes grupos, através de suas lideranças. Se a esquerda não se diversificar e abrir espaço para lideranças destas minorias, estará disputando esses grupos a partir de uma posição de desvantagem: de fora deles. Se representatividade não basta, uma estratégia inteligente é fomentar e projetar quadros das minorias a posições de liderança, para fazer a disputa ideológica dentro desses grupos. Se a esquerda pretende ampliar sua base social, melhorar sua correlação de forças, ela precisa de mais lideranças pertencentes à minorias, e não menos, para poder disputar estes segmentos da sociedade a partir de posições mais vantajosas.

    A direita tem usado, já há vários anos, a estratégia de se apresentar como renovada e moderna a partir da projeção de lideranças pertencentes à minorias. Na eleição do México deste ano a direita será representada por uma mulher de ascendência indígena. No segundo turno da eleição do Equador de 2021 o apoio do terceiro colocado, um indígena, foi fundamental para a vitória da direita. Se a esquerda insistir na estratégia de reservar os espaços internos de poder, como direção partidária ou candidaturas majoritárias, aos homens brancos com mais de 60 anos, já entra nas disputas políticas em posição de desvantagem, abrindo um flanco para ataques adversários.

    A diversidade é a vanguarda do antifascismo

    Há uma grande luta de ideias ocorrendo, em que o discurso fascista defende o fim da igualdade como pilar estruturante da sociedade, restringido minorias a uma subcidadania. O ódio às minorias é mobilizado para justificar medidas que aumentem a desigualdade social, então hoje, a luta pela diversidade não é apenas a defesa de ideais abstratos do liberalismo clássico que o liberalismo econômico esqueceu, mas batalha central da luta antifascista.

    Mas é impossível vencer essa batalha, sem que nos tornemos mais diversos. Toda organização política tem um discurso, e tenta convencer a sociedade deste discurso. Mas, como já está claro para todos os estudiosos da comunicação e educação, as ações dizem mais que as palavras, o que não deveria surpreender nenhum materialista. Se nosso discurso contra a discriminação não se materializa em ações concretas, dentro do nosso próprio grupo, ele vai ser lido como hipocrisia e incoerência pelas pessoas, mesmo que elas não elaborem essa percepção de modo consciente.

    Não é possível vencer o discurso fascista que inferioriza as minorias em uma organização que inferioriza as minorias.

    Estes dois motivos sozinhos indicam que, para as organizações de esquerda, priorizar a diversidade não é mais uma opção, mas um imperativo estratégico, uma necessidade imposta pelo tempo histórico em que vivemos. Mas ainda há um motivo bastante pragmático de porque mais que necessário, é desejável:

    A mediocridade dos privilegiados

    Em uma sociedade desigual como a nossa, as pessoas simplesmente são medidas com réguas diferentes. Enquanto as pessoas das minorias precisam ser realmente excepcionais para serem reconhecidas, a elite branca que possui riqueza intergeracional é reconhecida como genial mesmo que seja apenas medíocre. Não é a toa que todas as empresas que se arriscam a abrir suas posições de poder para membros das minorias veem seus resultados crescerem.

    Quando alguém diz, por exemplo, que é “cria da Maré”, está dizendo que teve a capacidade de alcançar bons resultados mesmo com vários mecanismos de opressão sistêmica jogando contra. Está dizendo que as pessoas mais geniais do Brasil não são os filhos da elite que alcançam bons resultados com todas as condições a favor, mas as que, com tudo jogando contra, ainda assim se destacam. A decisão de colocar uma pessoa com esse tipo de capacidade em posições de liderança e poder, administrando recursos e pessoas, é a decisão de colocar as melhores e mais capacitadas pessoas da nossa geração para comandar nossa ação política.

  • Precisamos reaprender a sonhar

    Sobre sonhos e utopias

    Neste artigo usamos o jargão1 de Ernst Bloch, um filósofo alemão que dedicou sua vida a estudar a utopia. Para Bloch a palavra “utopia” tem um significado bastante diferente do sentido que ela costuma ter em círculos comunistas. Para ele, o comunismo científico é uma utopia, enquanto o comunismo utópico está mais próximo de um sonho. Sua obra traça uma progressão de organização e desenvolvimento que começa com a imaginação do futuro em que projetamos nossos desejos até os movimentos políticos organizados que buscam materializar esses desejos. Esse último estágio, um ideário coerente, organizado, vinculado a um movimento político que atua na realidade para se materializar, esse é a útopia para Bloch.

    O papel da imaginação na política

    Não é fácil sonhar. O adágio do Realismo Capitalista de Mark Fisher, de que é mais fácil imaginar o fim do mundo que o fim do capitalismo é dolorosamente real. Há muitos motivos para isso. O “fracasso”2 da experiência soviética, o fato da democracia liberal ter se consolidado como modo de governo compulsório, a rejeição da experiência chinesa não ser uma democracia liberal… Tudo isso são empecilhos para imaginarmos um futuro socialista, o que tem influência na atuação política cotidiana. De certo modo, abdicamos de propor o que é essa sociedade socialista que defendemos, porque não há modelos que consideremos aceitáveis, e tentar replicar modelos é simplesmente errado. Nenhum modelo se encaixa em uma sociedade, porque cada sociedade tem suas peculiaridades históricas.

    Mas ao não apresentar o que desejamos a longo prazo estamos dizendo, quando tentamos recrutar alguém para nossas fileiras, “Entre no carro! No caminho te conto o destino!”. Mas, já dizia Lênin, a revolução não é um carro e sim um trem. Todos sabem em qual estação do trem querem descer, antes de entrar nele. A ação política se baseia, antes de mais nada em um desejo. É orientada a um resultado ou, como Bloch chama, é “consequente”.

    Sem uma imaginação capaz de produzir uma imagem de futuro, não existe chance de convencer ninguém a entrar nesse trem. Mas essa imagem não é o caminho, a ação política cotidiana das lutas de cada semana, essa imagem não é um plano detalhado com um passo a passo de 50 anos, essa imagem sequer é a descrição de um mundo de ficção científica. Isso é querer pular etapas. São elementos de uma utopia a ser construída mais adiante. A imagem é exatamente isso, uma visão, não muito clara, no lusco fusco do horizonte, cheia de poesia e sedução: um idílio3.

    A situação paradoxal do comunismo no século XXI é que temos a utopia – desenvolvida, complexa, pensada e consequente – mas perdemos o idílio – incipiente, poético, sedutor e desvairado. O que falta aos partidos de esquerda não são planos e projetos, mas sonhos. Isso explica porque os jovens são tão seduzidos por grupos radicais, que se prendem ao sonho e se recusam a elaborar utopias a partir dele. E porque os grupos da utopia sem sonhos tem dificuldade de se renovar. O ciclo que Bloch descreve, em que o sonho alimenta a utopia, que por usa vez o realiza, está quebrado. Os sonhos não se desenvolvem em utopias consequentes, e as utopias consequentes não se sustentam mais em sonhos.

    Isso nos obriga a nos perguntarmos:

    Com o que sonhamos?

    Com produtos e serviços da sociedade de consumo4. Com um novo celular, um novo carro, uma nova viagem. Quase ninguém sonha com serviços públicos, com creche ou ônibus gratuito. A promessa de churrasco de picanha é muito mais sedutora que a promessa de um “SUS Forte”. O que os serviços públicos podem oferecer, em termos de sonhos capazes de serem vendidos pela publicidade individualista não é a si mesmo, mas suas consequências. O tempo livre que a creche proporciona, a segurança que um SUS dá.

    Mas essa estratégia de publicidade, embora possa ajudar nas disputas políticas imediatas, não muda o status quo. Não muda que os sonhos são todos de realização pessoal em uma sociedade competitiva, o que é a essência da ideologia neoliberal. Nenhum desses serviços públicos, vendidos com as estratégias neoliberais, nos aproxima de conseguir atrair à nossa utopia. É preciso mudar o próprio modo como sonhamos. Os sonhos, Bloch afirma, satisfazem nossas necessidade e desejos, então, se queremos resgatar sonhos que levem ao socialismo, só podemos fazer isso a partir das necessidades não podem ser atendidas pela sociedade de consumo.

    Isso tudo está absurdamente teórico!

    Tentando construir um exemplo para que essa divagação possa fazer um pouco mais de sentido, talvez quem possa mais nos ajudar seja Weber. Como humanos, precisamos não só satisfazer nossas necessidades materiais, mas também sentir que nossa vida tem justificativa, tem sentido. Precisamos nos sentir validados e apreciados por nós mesmos e nossos pares5. Como a sociedade de consumo destruiu as comunidades, nos resta formar grupos de consumidores do mesmo produto, seja café esnobe, série de TV, influencer, ou mesmo tentar virar produto a ser consumido, como ocorre com os próprios influencers. Ambos substitutos fracos, que nunca satisfazem nossa necessidade de comunidade, porque comunidade não é mediada pelo mercado.

    Mas podemos imaginar comunidades…

    Uma vida social, comunitária, construída fora do mercado, pode ser imaginada. Mas há um risco aqui. Essa é a mesma oferta que o fascismo faz: “um retorno6 ao tempo em que existiam laços sociais e comunitários” (apenas entre os iguais e sustentados pela exploração e exclusão dos desiguais). A imagem projetada dessas comunidades precisa ser inclusiva, aberta, acolhedora, solidária e livre de preconceitos. Não é qualquer comunidade. Não pode ser uma reedição das comunidades anteriores.

    Essa imagem de uma vida comunitária forte, inclusiva a solidária é o sonho, o idílio. Oferece a sedução que motiva as pessoas. Mas ela precisa se elaborar em utopia política consequente. Precisa se elaborar em planos de como materializar esse sonho e o transformar em novo normal.

    Praças? Cozinhas comunitárias? Mobilização social a partir dos CRAS? Várias possibilidades.

    O sonho sem uma utopia não tem consequência e não se materializa, mas o movimento político sem sonho não seduz e não engaja. Hoje em dia pensamos muito em termos de políticas públicas, com objetivos muito factuais. Somos bons nisso. Talvez o que precisemos seja começarmos a pensar políticas públicas tentando materializar sonhos. Não qualquer um, mas sonhos fora do mercado. Ao materializar esses sonhos, ao difundir imagens de uma sociedade que se realiza fora do capitalismo, estamos um passo mais parto de voltar a imaginar uma sociedade socialista.

  • Como fabricar um fascista (em nome de Deus)

    Hoje os evangélicos descobriram que Bolsonaro frequenta lojas/templos da maçonaria. A pergunta que eu me faço é, como não descobriram isso quatro anos atrás, quando ele começou a campanha a presidente, e visitava a maçonaria semana sim, semana também?

    Gen. Mourão, vice de Bolsonaro, é maçom e se elegeu senador pelo RS com voto evangélico. Em, literalmente, todos os jornais do Brasil tem imagens dele com avental de maçom. Carla Zambelli, uma de suas apoiadoras de primeira hora, se casou em um templo maçônico e teve Sérgio Moro, ex-juiz ladrão, ex-ministro de Bolsonaro, como padrinho. Isso não devia espantar ninguém, pelo simples fato que Bolsonaro é um ex-oficial de exército, expulso em desonra, depois de planejar atentatos terroristas. O oficialato do exército brasileiro sempre esteve cheio de maçons. Marechais Deodoro e Floriano, primeiros presidentes do Brasil, eram maçons. “Milico é maçon ao contrário”, digo de vez em quando como brincadeira. Então, quando, literalmente, todos os jornais do Brasil publicaram fotos do Bolsonaro visitando lojas maçônicas, sorridente ao lado de maçons, eu não tive o menor vestígio de surpresa.

    • Zambelli de vestido de noiva e seu esposo de farda branca em primeiro plano. Ao fundo um balcão com 3 homens e atrás dele o triangulo com o olho da maçonaria.
    • Mourão com avental da maçonaria ao lado de outros homens brancos de aventais e colares
    • Bolsonaro ao lado de homens cm avental da maçonaria e uma bandeira da loja Grande Oriente

    Se são tantos os motivos para saber que Bolsonaro está cercado de maçons, provavelmente desde que era um cadete na Agulhas Negras, como uma parcela tão grande de brasileiros descobriu isso hoje, quatro de outubro do ano de nosso senhor Jesus Cristo de 2022? É preciso que essas pessoas sejam mais que desinformadas. Para uma parcela enorme da população ignorar completamente um fato que é público e notório é preciso controlar os meios de comunicação, para impedir que eles noticiem o que é público e notório. É preciso censura. E não faz sentido falar de censura quando, como dito, isso foi publicado em, literalmente, todos os jornais do Brasil. Então, estamos diante de um fenômeno mais interessante. Vamos chamar de “segregação informacional”.

    Igrejas evangélicas costumam ter canais de TV, jornais, e recomendar que seus fiéis acessem informações apenas destas fontes. O objetivo é evitar ser contaminado por um mundo de pecado, evitar a tentação é um passo anterior a pedir para Deus “não nos deixei cair em tentação”. Se essa parcela da população voluntariamente seleciona suas fontes de informação, para fazer ela ignorar algo não é preciso censurar toda a imprensa, apenas essa mídia evangélica. E sim, no momento em que escrevo a página inicial do portal R7, da Igreja Universal não tem nenhuma menção à polêmica do dia, ao contrário da Folha, por exemplo.

    E, pode me chamar de teórico da conspiração, mas isso exige consciência. Quem comanda estes meios de comunicação evangélicos decidiu, conscientemente esconder do público evangélico, informações que desabonem Bolsonaro. Estes meios de comunicação decidiram que não são jornais, mas panfletos políticos defendendo um candidato.

    Para fabricar um fascista que defenda o indefensável é preciso fazer ele acreditar em muitas mentiras. Editar a realidade em que ele vive através de muita propaganda. A atitude evangélica de evitar a imprensa laica os deixou vulneráveis à má fé de seus dirigentes que esconderam deles o que “todos sabem”. Que Bolsonaro é rodeado de maçons, que seu governo foi uma catśtrofe, que ele é o assassino de pelo menos 400.000 pessoas que não precisavam ter morrido na pandemia, que é corrupto até os ossos. Esses sacerdotes que são donos de meios de comunicação incentivam seus fiéis a consumirem apenas estes meios de comunicação e os usam para ganhos financeiros e políticos, espalhando pânico moral e mentindo para seus féis. Essa edição da realidade através da mídia que as igrejas fazem tem feito com que, cada dia mais, seja difícil diferenciar um evangélico de um fascista. E é impossível que isso seja obra do acaso. Estamos diante de um caso de má fé clara.

    Precisamos urgentemente e uma regulação da mídia e, provavelmente, a parte mais importante dessa regulação seja impedir a simbiose entre religião e mídia.

  • Minha história com a “correlação de forças”

    ou: Da necessidade de uma “engenharia” na política

    Quando comecei a frequentar reuniões partidárias, comecei a ouvir algumas expressões, como “análise de conjuntura”, “correlação de forças” e, claro, ficava com vergonha de perguntar “O que é isso?”. Tenho a impressão que o círculo de “cracudos da política” tem um léxico próprio e assume que todo mundo que entra nesse círculo tem obrigação de saber o que os termos significam.

    Lembro de, com algo como 16 anos, ficar me perguntando, lá pela quarta, quinta reunião o que significava “análise de conjuntura” e do momento de compreensão súbita de que “correlação de forças” não era apenas comparação de potencial eleitoral, mas algo mais amplo, incluindo a capacidade de mobilizar recursos para suas ações, e etc.

    Todos os espaços políticos que participei valorizavam muito a leitura e o estudo: entender “teoria”. Citar os pensadores, fazer “análises de conjuntura” profundas, te garante bastante status nesses espaços (e no Twitter). Mas (e olhe a cartada de autoridade) parafraseando Marx, não é mais tempo de analisar a correlação de forças, mas de transformá-la.

    Nossa “teoria” política se aproxima muito da física teórica. Concebe conceitos e enquadra a realidade neles. Um esforço analítico imenso. Mas na hora de fornecer ferramentas teóricas para transformar essa realidade, sinto que não conseguimos ajudar muito o garoto de 16 anos que não sabia muito bem o que era aquilo tudo que estavam falando. Sinto falta de uma engenharia, que ofereça algumas respostas práticas.

    Por isso, o incentivo a estudar que recebi, que me fez ler Lênin e Gramsci mais tarde, não me ajudou muito a entender como poderíamos mudar nossa correlação de forças. Temos ótimos textos sobre as condições políticas russas antes e após a revolução, mas muito pouca coisa sobre o Brasil do século XXI. Por mais que admire Lênin não posso acreditar que seja possível transpor facilmente qualquer uma de suas soluções, seja “paz, pão e terra”, seja “todo poder aos sovietes” aos nossos problemas.

    Estudamos muito a correlação de forças, mas pouco quais seriam estratégias viáveis de acumulação de forças. Quando debatemos, aparecem propostas genéricas como “voltar às bases”, que por mais que estejam certas, são abstratas demais para terem a utilidade necessária.

    Existem regularidades. Existem situações similares. Precisamos de alguma compilação de conhecimentos sobre como atuar politicamente em espaços similares: escolas, periferias, unidades de saúde, sindicatos… Respeitar as singularidades de cada condição concreta não significa não oferecer um método. Paulo Freire, mestre em respeitar as realidades locais, ofereceu um método.

    Voltando à correlação de forças, com o tempo descobri que existem caminhos para que acumular estas tais forças em correlação. Entidades precisam comprar aos poucos ferramentas que possam ser usadas para várias atividades, aumentando sua capacidade de mobilização; precisamos registrar os contatos do máximo de pessoas que participam de atividades, e, principalmente, mobilizar estes contatos; construir projeção midiática de potenciais candidatos; e mais uma série de estratégias práticas.

    Nesse mesmo tempo de descobertas, percebi que no dia a dia de mobilizações, atos de rua, congressos e eleições de entidades, raramente temos este tipo de cuidado, por falta de tempo e orientação, excesso de urgência e imediatismo.

    Meu palpite é que grande parte dessa carência é falta de “pegarmos na mão” e ensinarmos as cosias aos jovens de 16 anos. O excesso de ego e a supervalorização da teoria sem práxis, e práxis é organização.

    Fiquem com Malcon X.

    Foto de Malcon X com a mão no rosto e olhar pensativo com a legenda "We are not outnumbered. We're out organized."
    Nós não somos minoria. Nó somos desorganizados. (um trocadilho no original)
  • Qual o horizonte do comunismo?

    No mais polêmico lançamento de livro dos últimos anos, Elias Jabbour fez um comentário importante: o horizonte do socialismo hoje em dia é o governo guiado pela razão. Essa discussão de “qual o horizonte do socialismo?”, em qual alvo a gente mira? Essa é uma discussão que fazemos pouco, e sinto que precisávamos fazer mais.

    Afinal, União Soviética caiu, Europa Oriental virou capitalista, os regimes socialistas e Cuba, China, Laos e Vietnã passaram por “reforma e abertura”. A possibilidade de uma revolução violenta é muito remota no Brasil, uma vitória eleitoral acachapante dos comunistas também é uma possibilidade improvável e, pior, parece depender de clareza sobre qual este horizonte. Difícil convencer o eleitorado sem um plano claro de para onde ir. Qual o alvo então? Qual o horizonte onde mirar?

    Mas um governo orientado pela razão parece antes uma utopia weberiana que uma marxista, não? O que ocorreu entre os anos 70 do século XX, em que as revoluções eram possíveis, e aconteceram, e os nossos anos 20 do século XXI, cuja utopia lembra o século XIX?

    Existe uma potência singular por trás do argumento de Elias Jabbour, uma verdade implícita: a razão defende o socialismo, e o sistema neoliberal é irracional.

    É difícil sustentar racionalmente um sistema onde 99% da população possui metade da riqueza. Argumentos neoliberais, como a “economia do gotejamento” são desmentidos pelos fatos. É impossível justificar pela razão a existência de bilionários em países onde pessoas passam fome. E, ainda mais insustentável defender políticas econômicas, que neste contexto, favorecem os bilionários e aprofundam a fome.

    A razão pode descrever estes sistemas, mas nunca defendê-los.

    O capitalismo se sustenta não pela razão, mas pela falta dela. Pelos automatismos que são incutidos nas pessoas pela educação, pela mídia, pela tradição. Pela defesa cega e irracional da “família”, da “meritocracia”. O simples fato de aplicar a razão ao governo, nos leva à conclusão básica da República: administrar o comum para o bem de todos. Um ideal iluminista.

    Citação de Darcy Ribeiro com uma foto dele sorrindo.
"A crise na educação no Brasil não é uma crise; é um projeto."

    A ideologia capitalista bota uma fantasia de racionalidade no capitalismo, porque utiliza a ciência e a técnica para administrar a produção, porque planeja as atividades futuras. Mas essa racionalidade do setor privado do capitalismo não se estende ao governo ou ao Estado, cujas ações se guiam não pela razão da República, mas por defender e perpetuar os privilégios de poucos às custas de muitos. Sob o capitalismo, o Estado é um projeto de exclusão, cuja crueldade precisa ser mascarada para que possa se passar por racional.

    Mas qual razão poderia aumentar a taxa de juros em meio a uma recessão, como nosso Banco Central tem feito? Qual razão poderia criar o Teto de Gastos em um país que precisa desesperadamente de investimento público? Que razão poderia aplicar um três golpes de estado em nossa história? Que razão pode glorificar a tortura?

    Não é a razão não guia os governos no capitalismo, mas os interesses de uma pequena elite em manter funcionando a máquina de fabricar miséria que nosso governo foi projetado para ser. O objetivo que as instituições democráticas dizem que defendem são todos racionais. Os objetivos que o liberalismo diz que defende são todos racionais, e se aproximam de vários objetivos comunistas. Mas o que as instituições realmente fazem é irracional. O que o neoliberalismo defende é indefensável.

    Sobre isso, nosso próximo post vai mergulhar na má-fé institucional.

  • O Antipetismo ou Da Banalidade do Mal

    Entender o mal é complicado, porque nós sabemos que as pessoas, em sua maioria são boas. Momentos como hoje, em que muitas pessoas consideram seriamente votar em um candidato que defende o preconceito e a violência nos incomodam, porque abalam nossa fé no ser humano. É sobre essa fé que vamos falar.

    Para descrever o nazismo Annah Arendt usou o termo “banalidade do mal”. Para ela, surgiu um sistema em que as pessoas deixaram de pensar e começaram a seguir o fluxo. Um fluxo que levou ao assassinato em massa, em escala industrial. E quando as pessoas tiveram que refletir sobre suas ações não conseguiam entender como tinham cometido essas aberrações.

    Deixar de pensar é o ponto chave aqui. Todos nós somos responsáveis pelo que fazemos, mas só quando a gente para e pensa a gente toma consciência do que estamos fazendo. É difícil pensar e fazer ao mesmo tempo. E, se a maior parte das pessoas é boa, se elas pararem para pensar, provavelmente mudam suas ações.

    E precisamos convidar as pessoas a pensar sobre o antipetismo.

    Desde que Lula começou a governar a imprensa começou um bombardeio sem trégua, distorcendo, exagerado e até mentindo para criar uma narrativa que o PT não é um partido, mas uma “organização criminosa”. Têm dado palanque a todo fundamentalista para dizer que o PT quer perseguir cristãos e “acabar com a família”. Têm repetido e repetido que o PT levaria o país a uma crise econômica sem precedentes.

    Esse discurso virou senso comum, é o fluxo em que as pessoas seguem, e onde elas não precisam pensar para agir. O caminho ditado pelo piloto automático. Esse piloto automático diz que o PT é a pior coisa e que qualquer alternativa é melhor.

    Será mesmo?

    Como acreditar que o partido que sofreu um impeachment e teve sua maior liderança presa sem apelar para o autoritarismo é um partido autoritário? que quer implantar uma ditadura? Que um partido que implantou tantas políticas de assistência social, de proteção às famílias mais pobres, está trabalhando para destruir a família? Que o partido que armou a Lava Jato de poderes e deixou que ela funcionasse é uma organização criminosa?

    Precisamos convidar as pessoas a pensar nisso, porque só quando questionamos o senso comum conseguimos realmente avaliar a alternativa. O discurso do antipetismo que não há nada pior que o PT, e não adianta tentar mostrar os defeitos de Bolsonaro sem questionar esse ponto de partida.

    O antipetismo é nosso veneno atual, que turva o julgamento e nos impele para abandonar valores básicos como a democracia, os direitos humanos, o respeito ao próximo, e o antídoto para este veneno é o pensamento. É o pensamento que chama as pessoas de volta à responsabilidade pelas suas ações.

    Pense. Convide a pensar.

  • Por que querem nos isolar?

    Nunca fomos tão solitários, dizem vários estudos. Alguns apontam as redes sociais, outros a pós modernidade, alguns o capitalismo selvagem em que vivemos. Mas nessa reta final das eleições, estamos sentindo uma solidão muito mais grave.

    Nas igrejas, escolas, universidades, redes sociais, vemos os fascistas botarem em prática uma estratégia de fazer barulho, intimidar, fazer parecer que são maioria, para nos inibir. Fazer com que pensemos que somos poucos, que nossa situação é frágil, e por isso fiquemos calados, em silêncio, sozinhos e com medo.

    Por isso o ataque incessante de bots/trolls. Tentam intimidar como uma onda, uma manada. Por isso as constantes ameaças de violência física. Tentam intimidar do modo mais baixo. Mas por que querem nos isolar?

    Uma das necessidades do fascismo é que as pessoas sejam fracas para que o estado seja forte. Isolar as pessoas é um modo de as enfraquecer.

    Nós somos pessoas, indivíduos, únicos e, entre nós, há um espaço. Neste espaço-entre, surgem as nossas relações. Nesse espaço nos expressamos, agimos, conhecemos o outro e o outro nos conhece. Neste espaço nos tornamos realmente humanos a partir de relações significativas. 

    Quando não podemos nos expressar neste espaço-entre, por conta do medo, ficamos cada vez mais isolados e frágeis, porque precisamos de apoio dos nossos para sustentar nossas opiniões contra uma multidão violenta, mas mais que isso. Quando nos roubam este espaço-entre, nos roubam uma parte da humanidade.

    O fascismo usa o medo sobre todos. Persegue todos que discordam para insuflar o medo com que preenche o espaço-entre, acabando com a liberdade. Mesmo os que perseguem são vítimas. Dentro dos grupos fascistas a vigilância contra traidores e constante e a discordância é sinônimo de traição, e punida.

    Assim que as vozes se calam, assim que os fascistas conseguem tornar o espaço-entre tão hostil que ninguém mais fala, quem está no topo da hierarquia tem o poder completo, porque não é possível uma resposta coletiva contra seu arbítrio. Quando o espaço-entre não comporta mais a vida, não vivemos. Quando não há espaço-entre, perdemos um pouco da nossa humanidade e nos tornamos animais assustados a mercê de um ditador.

    E é por isto que querem nos isolar.

    Como eles são violentos, intimidadores, usam as estratégias do medo, grande parte das pessoas menos politizadas já se calaram, alimentando a ilusão que eles são mais fortes do que são, nos despertando solidão e angústia nesses últimos dias. Mas no momento em que nos calarmos, no momento em que nos submetermos a estes sentimentos, eles vencem.

    E é por isso que não podemos nos isolar.

  • Política vs. Informação&Entretenimento

    Em 2003 Humberto Guessinger e Paulinho Galvão escreveram “Fusão a frio”, avisando sobre as incertezas desse encontro entre informação e entretenimento.

    “Ninguém sabe como serão os filhos deste casamento
    indústria da informação,indústria do entretenimento
    promessas de fusão à frio, desvio de comportamento”

    Fusão a Frio, Humberto Guessinger e Paulinho Galvão em Dançando no Campo Minado, 2003.

    Talvez veja nessa fusão antes de mais nada na mudança dos documentários, que passaram de programas informativos para essa tentativa canhestra de adicionar ação e drama, mas podemos ver também nos telejornais7, programas de auditório, revistas semanais e, claro, canais do YouTube.

    O ideal da república esclarecida parte do pressuposto que cidadãs e cidadãos participem de forma qualificada, esclarecida e engajada. Mas este casamento de informação e entretenimento não contribui nem para o engajamento nem para o esclarecimento. Processar informação é esforço, trabalhoso, e o entretenimento precisa de gratificação imediata. Por isso a política é transformada em uma espécie de esporte. Porque a vitória do seu time oferece gratificação.

    O grande problema do esporte é que ele é que seu resultado é definido pelo seleto grupo de jogadores, técnicos, administradores, médicos, etc. A nós, espectadores e torcedores, resta observar e torcer. O problema central desta abordagem não é que ela reduza o engajamento, que é fundamental para a república (e reduz), mas que ela leva a uma degeneração da política.

    A política deixa de ser algo que nos diz respeito, que afeta nossa vida, e da qual podemos participar de modo ativo, para ser algo que observamos relativamente passivos, com ganas de vencer o adversário. Um jogo entre alguns atores privilegiados, que nos diz respeito apenas enquanto apoiadores de um dos lados.

    A antipolítica se alimenta dessa visão, que a política diz respeito apenas a estes jogadores e seus torcedores, em vez de se tratar do nosso destino compartilhado, de nossa vida coletiva.

    O radicalismo crescente, a impossibilidade de construir acordos e conciliações tem se beneficia com esse desvirtuamento. Quando você retira da política seu cerne, seu significado, que é ser um mecanismo de decidir nosso destino compartilhado, e a reduz apenas à sua aparência de conflito, você retira o significado deste conflito, que está nas diferente estratégias para melhorar essa vida compartilhada. Sobra um conflito pelo conflito, como os dos torneios esportivos.

    O mais assustador nos últimos anos foi a normalização do preconceito, da discriminação e da incitação à violência como se fossem posições políticas aceitáveis. Uma explicação possível é exatamente este esvaziamento do significado da política.

    Outra é que a divulgação dessas posições quebra a espiral do silêncio em torno delas, cativando um grupo de espectadores que discorda dos valores mais básicos do Ocidente. Oferecer gratificação para estes espectadores não poderia ser uma função da informação, mas bem pode ser uma do entretenimento.

    Precisamos resgatar o sentido da política, e isto inclui negar o modo como o noticiário político se organiza. Apontar as consequências das escolhas políticas, consequências bem reais, vida e morte de pessoas. Resgatar a percepção que a política é feita em conjunto por todos nós, e não por um pequeno grupo de privilegiados.

    Infelizmente, isto significa também pensar novas formas de comunicação, que possam incentivar a responsabilidade em vez do conflito vazio e a participação em vez da torcida.