Quando a gente ouve que o Brasil tem aproximadamente 350 bilhões de dólares em reservas internacionais, o equivalente a mais de 15% do PIB, a primeira pergunta a fazer deveria ser “e por que não usamos esse dinheiro para investir no Brasil, ou pagar uma boa parte da dívida pública, reduzindo o gasto com juros e ajudando o a liberar recursos para investimentos públicos?” Afinal, se um país acumula riqueza exportando mais do que importa, o mais lógico é investir essa riqueza no país, e não usá-la para comprar dívida dos EUA, enquanto sofre de falta de investimento. A própria noção de precisar ter “reservas internacionais” deveria ser alienígena e ilógica.
A explicação, como em muitos outros casos, é o imperialismo, e começamos a compreender o papel das reservas internacionais ao nos perguntarmos sobre sua utilidade prática: proteger os países de especuladores do mercado financeiro.
Um exemplo clássico do imperialismo são as guerras do ópio, em que o Reino Unido obrigou a China a comprar ópio para equilibrar a balança de pagamentos britânica, que estava sendo drenada pelo grande déficit comercial com a China. As reservas internacionais são o ópio da nossa geração, uma maneira de os países de periferia que exportam para o centro imperialista serem obrigados a devolver o dinheiro que ganharam, em vez de usá-lo para se desenvolver.
Se para obrigar a China a comprar ópio, a um custo humano gigantesco, o Reino Unido precisou de soldados, hoje os EUA precisam de especuladores que obriguem os países a comprar títulos da dívida estadunidense para financiar o déficit infinanciável dos EUA, prendendo os países na pobreza a um custo humano enorme. Esses especuladores veem os países como alvos potenciais para especulações em torno do valor da sua moeda local. Ao apostar na desvalorização exigem que esses países aumentem seus juros e vendam suas reservas para garantir a estabilidade da economia. Caso esses países tenham poucas reservas, eles quebram, a sua moeda se desvaloriza causando uma crise inflacionária e os especuladores que apostaram na desvalorização da moeda ganham muito dinheiro. Esta estratégia foi executada à exaustão durante a crise dos Tigres Asiáticos de 1997 quando investidores decidiram que os países tinham crescido demais sem aumentar suas reservas internacionais o suficiente, os tornando alvos fáceis.
As reservas internacionais são um dos principais mecanismos de reciclar os dólares de volta para os Estados Unidos, garantindo que o país possa funcionar. Assim como o dinheiro que se paga à máfia pela ‘proteção’, contra ela mesma, que ela vende. Ou, usando outra analogia, o dinheiro que você paga ao seu sequestrador para não ser sequestrado.
Claro, como os especuladores não são agentes do governo imperialista, apenas protegidos por ele, em teoria não são os Estados Unidos chantageando o mundo, mas apenas a ‘mão invisível do mercado’ cumprindo seu papel de proteger o centro imperialista.
Através da reciclagem de dólares o sistema imperialista garante que mesmo que um país ganhe dinheiro no mercado internacional, ele possa usar apenas uma fração desse dinheiro em seu próprio desenvolvimento. A única maneira de escapar é controlar a atividade especulativa ou sair completamente do mercado financeiro internacional, o que por si produz uma crise de grandes proporções.
A estratégia funciona tanto melhor quanto mais o fluxo de capitais for livre, e por isso as instituições internacionais, como FMI, OMC e Banco Mundial exigem que os países apliquem as reformas neoliberais que os tornam vulneráveis à especulação e mais dependentes destes mesmos órgãos.
Ou seja, a criação de instrumentos de controle de capitais é uma medida necessária para proteger o país da exploração imperialista, do sequestro que sua riqueza sofre, por mais que a sua implantação leve os especuladores a retaliar e tentar causar o caos.

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